Quem defende decisões baseadas em evidência tem uma obrigação chata: aplicar a mesma regra a si mesmo.
Se a pergunta desta casa é “como você sabe?”, ela também vale para a própria Cultura Data-Driven. Empresas que decidem com dados performam melhor? Ou isso é só uma frase bonita de palestra?
Fomos às pesquisas. Não a uma, mas a várias — incluindo meta-análises, que são estudos que reúnem dezenas de outros estudos.
O estudo que abriu a discussão
Em 2011, Erik Brynjolfsson, Lorin Hitt e Heekyung Kim analisaram 179 grandes empresas de capital aberto. As que adotavam decisão baseada em dados tinham produção e produtividade 5 a 6% maiores do que o esperado, mesmo considerando seus outros investimentos em tecnologia.
O detalhe importante está no “mesmo considerando”. Não era quem comprou mais software. Era quem levou os dados até a decisão.
Os autores também testaram se a história não era ao contrário — empresas boas usando mais dados — e encontraram sinais de que não é só isso.
O que dizem 125 estudos juntos
Em 2022, Thuy Duong Oesterreich, Eduard Anton e Frank Teuteberg reuniram 125 estudos, de 26 países, cobrindo dez anos de pesquisa.
Resultado: analytics está associado a melhor desempenho operacional, financeiro e de mercado.
Mas a descoberta mais interessante vem depois. Pessoas, capacidade gerencial e cultura organizacional pesaram mais na geração de valor do que a tecnologia.
Uma segunda meta-análise do mesmo grupo, com 107 estudos, chegou ao mesmo lugar: fatores técnicos importam, mas os humanos e a estrutura da organização predominam.
Tecnologia ajuda. Quem transforma capacidade em resultado são pessoas, gestão e cultura.
A cultura aparece medida
Dois estudos mediram a cultura data-driven diretamente.
- Na Turquia, 432 especialistas de 132 empresas mostraram que a cultura data-driven faz a ponte entre ter capacidade analítica e ter desempenho operacional e financeiro (Karaboga e colegas, 2023).
- Em 149 micro, pequenas e médias empresas, a capacidade de perceber mudanças e a capacidade analítica melhoraram o desempenho operacional — e a cultura data-driven amplificou esse efeito (Wong e Ngai, 2023).
O segundo estudo importa por um motivo simples: a lógica não é exclusividade de gigante de tecnologia.
Analisar melhor não basta
Uma meta-análise de 2025, com 34 estudos, encontrou efeito positivo de big data analytics no desempenho. Só que parte desse efeito passa por outra coisa: agilidade organizacional (Liu, Singh e Al Shibli).
Em linguagem de empresa: não adianta produzir uma análise melhor se a organização não consegue reagir ao que ela revela.
É exatamente a ideia de consequência. Dado que não muda nada é só registro.
O número que circula errado
Talvez você já tenha visto: “empresas data-driven são 19 vezes mais lucrativas”.
A origem é uma pesquisa da McKinsey de 2013 com 400 executivos, sobre um tipo específico de análise: customer analytics. Os usuários mais intensivos tinham 19 vezes mais chance de relatar rentabilidade acima da média do que os menos intensivos.
É um dado forte. Mas é sobre um tipo de análise, é autodeclarado, compara os extremos e não prova causa. Transformar isso em “dados multiplicam o lucro por 19” é exatamente o tipo de salto que a Cultura Data-Driven existe para evitar.
O que as pesquisas não dizem
Honestidade intelectual também é dizer onde a evidência para.
- Elas não dizem que usar dados causa lucro automaticamente. Só um dos estudos tenta isolar causa, e em grandes empresas.
- Elas não dizem que comprar tecnologia melhora desempenho. Dizem quase o contrário.
- A maioria dos estudos usa questionários e desempenho percebido, e estudos sem efeito costumam ser menos publicados.
- Nenhum dos estudos que conferimos tem amostra brasileira.
O padrão
Juntando tudo, aparece uma cadeia:
perceber e analisar melhor → decidir melhor → reagir melhor → performar melhor
E, regulando quanto da tecnologia chega ao resultado: pessoas, gestão e cultura.
Não é uma prova de que dados dão lucro. É algo mais útil: uma pista consistente de onde o valor nasce e onde ele se perde.
Esta é uma linha de pesquisa aberta. Vamos continuar acrescentando estudos — inclusive os que não encontrarem efeito.
Fontes: Brynjolfsson, Hitt & Kim (2011), ICIS Proceedings · Oesterreich, Anton & Teuteberg (2022), Information & Management · Oesterreich, Anton, Teuteberg & Dwivedi (2022), Journal of Business Research · Karaboga et al. (2023), Review of Managerial Science · Wong & Ngai (2023), Annals of Operations Research · Liu, Singh & Al Shibli (2025), Humanities and Social Sciences Communications · McKinsey (2013), Five facts: how customer analytics boosts corporate performance.